Enquanto esperava Paulinho sair de uma reunião de trabalho que se estendeu até após o expediente, estacionei num local que me dava a visão completa de um bar de esquina. O estabelecimento, cuja fachada mal cuidada evidenciava certa decadência, era administrado por um senhor de óculos e sua esposa, com longos cabelos soltos, ambos aparentando terem entre cinqüenta e sessenta anos. À beira da mesa de sinuca, um homem jovem praticava suas tacadas observado por duas mulheres. Uma delas estava vestida com calça jeans e blusa amarela sem mangas, a outra com um vestido rosa estampado. Ambas estavam sentadas em banquinhos, os braços apoiados no balcão. Às suas frentes, garrafas de cerveja. Ao fundo, uma profusão de garrafas de bebidas dos mais variados tipos descansavam na prateleira, apenas para serem, de vez em quando, depositadas nos copos dos clientes. Quem seriam aquelas pessoas, num bar decadente às dezoito e trinta de uma quarta-feira qualquer?
As mulheres estavam de banho tomado, como sugeriam seus cabelos molhados, carentes de uma tintura que talvez o salário mensal não tivesse bastado para comprar. Suas roupas eram simples, suas bolsas espalhafatosas e baratas. A de vestido rosa estampado não sabia ler, eu tinha certeza. A de blusa amarela se levantou de seu banquinho e foi em direção à estufa de salgados que ficava no canto esquerdo do balcão. Pôs-se a olhar por um bom tempo e apontou com o dedo indicador para a senhora de cabelos longos do outro lado do balcão o salgado escolhido. Com a coxinha em mãos, alcançou o vidro de molho de pimenta ao lado da estufa e voltou ao seu lugar, cada passo uma mordida no quitute, após cada mordida umas gotas de molho. O homem ganhara a companhia de mais um jogador de sinuca e outro senhor que bebia algo aparentemente bem mais forte que cerveja, sentado em outro banquinho próximo ao balcão, enquanto fumava e acompanhava o jogo atentamente. Falavam sobre futebol, eu podia apostar.
As mulheres iniciaram uma conversa. A de amarelo riu, entre dois goles de cerveja. A de rosa levantou a garrafa do isopor para ver se o líquido havia acabado. O primeiro homem põe suas mãos em torno da cintura da mulher de amarelo. Ela o serve de cerveja, num copo que ficara vazio minutos antes. Eles dormiriam na mesma cama aquela noite, quase posso afirmar. A mulher de rosa talvez fosse irmã da de amarelo, afinal, havia uma correspondência em aparência, excluindo-se alguns quilos de diferença e alguns anos de idade. A mulher do dono do bar, com seus cabelos longos, põe-se a fritar alguma coisa na chapa. Carne para um lanche, talvez. Se meus pensamentos chegaram até ela, a mesma deveria estar ouvindo: compre uma toca e ponha na cabeça quando for preparar alimentos. Mas não, eu sou invisível para aquelas pessoas. Estou no escuro da rua perpendicular. Ninguém me vê. Só eu os vejo, e analiso.
Quando Paulinho chega, eu os entrego aos seus destinos, às suas cervejas, aos seus salgados, aos seus jogos, às suas camas, às suas vidas. Os abandono. Nunca saberei quem são.
